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Fernanda Yamamoto e a poesia das cores

Fernanda Yamamoto e Lu Ulrich falam sobre cores e tingimento natural (1)

“Essa coleção é um divisor de águas. A cor sempre foi importante para a marca, mas nunca partimos dela para criar uma coleção”, diz Fernanda Yamamoto em seu ateliê, no andar de cima da loja-conceito situada na Vila Madalena, em São Paulo. No dia 16 de agosto, eu estive com ela e alguns convidados para falar sobre combinações e significados das cores. “Trabalhar com cores é difícil e esse exercício que fizemos com a Studio Immagine nos ajudou muito. A partir de agora tenho certeza que as cores terão mais força nas coleções”.

O exercício foi uma delícia de fazer: eu propus combinações entre as peças (lindíssimas!) e a equipe criativa da Fernanda Yamamoto pôde visualizar isso com clareza em pequenos moldes de papel, olha que graça:

Mas vamos começar pelo começo: o tema da coleção Primavera 2019 era a comunidade Yuba, formada por cerca de 60 descendentes de japoneses que vivem em Mirandópolis, a cerca de 600 quilômetros de São Paulo. E sua filosofia encantou Fernanda Yamamoto desde que ela esteve lá pela primeira vez, há três anos. “Eles trabalham de maneira autossustentável, vivendo da terra e das artes e colocam a mão na massa para tudo: construir casas, criar uma peça de teatro, preparar comida… A gente quis incorporar essa filosofia dominando todo o processo de criação da coleção”, explica Fernanda.

“Como não podemos produzir o tecido, pois nossa equipe é pequena, optamos por começar a coleção já na coloração da matéria-prima e o jeito que encontramos para isso foi o tingimento natural”, completa Luciana Bortowski, assistente de criação da estilista. Para isso, a marca chamou a pesquisadora de tingimento natural Claudia Fugita e foi com ela para a comunidade Yuba no final do ano passado. Foram três meses de pesquisa e coleta de materiais que pudessem ser usados no tingimento, como casca de cebola (que resulta em um elegante tom de marrom, veja na foto abaixo), cúrcuma (de um amarelo vivo) e caroço de abacate (que traz um rosa envelhecido para os tecidos).

“A ideia era criar um arco-íris de cores e principalmente fugir dos óbvios tons pastel, comuns quando se trata de tingimento natural. Então, fomos experimentando várias possibilidades e tratamentos para que os tecidos reagissem bem às cores”, diz Luciana. O resultado foi um desfile – apresentado em abril na SPFW – com 100% das peças coloridas nesse processo. “O desfile é o momento de uma reflexão sobre o que a gente acredita e de uma explosão de criatividade”, argumenta Fernanda. Já em escala comercial é impossível reproduzir toda a cartela, porque para atingir tonalidades tão vibrantes muita matéria-prima é empregada e, aí, deixaria de ser sustentável. Mas peças tingidas com cúrcuma, casca de cebola e feijão preto (que somado a bicarbonato de sódio pode ficar azul ou verde) já estão nas araras da rua Aspicuelta.

Ao entrar na loja, de decoração clean e pé-direito alto, a peça que mais chama atenção é um casaco todo colorido. Ele foi feito com retalhos do desfile, todos, é claro, com tingimento natural: cúrcuma, casca de cebola, caroço de abacate, cochonilha (um pulgão que vive em cactos), índigo, feijão preto… É de babar!

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